A excursão de pista permanece entre as ocorrências mais frequentes na Aviação Geral, representando uma parcela significativa dos acidentes e incidentes reportados no Brasil e no mundo. Embora possa assumir vários cenários, trata-se, em grande parte, de um evento evitável, já que costuma
estar diretamente associado a fatores humanos como: planejamento inadequado, tomada de decisão tardia, aproximações desestabilizadas e interpretação insuficiente das condições da pista e do vento.
Estudos internacionais indicam que mais de 55% das excursões de pista acontecem durante o pouso e que, em cerca de 80% dos casos, a tripulação havia identificado algum indício de instabilidade ou condição adversa antes do toque. Isso reforça o enorme papel da disciplina operacional e do treinamento
na prevenção.
Outro ponto crítico é a subestimação das margens de segurança. Na aviação comercial, referência mundial em segurança, utiliza-se um fatoramento de pista conservador nas análises de desempenho: aproximadamente 1,67% para pistas secas e 1,92% para pistas molhadas. Sabemos que tal margem nem
sempre é aplicável às operações da Aviação Geral, mas o princípio é importante e deve ser adequado a nossa operação, quanto maior a consciência situacional, melhor o julgamento e maior a proteção contra erros.
Entre os fatores frequentemente ignorados ou subavaliados em operações da Aviação Geral destacam-se:
– Aproximações conduzidas abaixo do perfil ideal ou já desestabilizadas;
– Não consideração de penalizações importantes, como vento de cauda, pista contaminada (água, lama, grama molhada, neve), slope negativo ou presença de obstáculos;
– Excesso de confiança decorrente da familiaridade com o aeródromo ou proficiência no equipamento.
Para elevar o nível de segurança operacional e reduzir de forma efetiva o risco de excursões de pista, o BRASI recomenda especial atenção aos seguintes pontos: – Realizar o cálculo de performance considerando peso atual, temperatura, altitude de densidade, condição da pista e vento.
Adotar tolerância zero para aproximações desestabilizadas. Caso os critérios não sejam atendidos, arremeta. – Avaliar cuidadosamente todos os elementos da pista: coeficiente de atrito, contaminação, slope, inclinação lateral e direção/velocidade do vento. – Respeitar a zona de toque (marca de 1.000’) impreterivelmente. Aterrissagens longas aumentam exponencialmente o risco de saída de pista. – Considerar o Reject Landing (arremetida após o toque) caso ultrapasse o ponto médio sem controle adequado da aeronave ou sem garantia clara de parada.
A prática, a disciplina e a tomada de decisão oportuna são pilares fundamentais para que cada operação aconteça dentro das margens de segurança necessárias. A Aviação Geral tem um enorme potencial de elevar ainda mais seu padrão e isso começa com atitudes simples, consistentes e técnicas em cada voo.